O second hand deixou de ser apenas uma alternativa de preço. Ele está se transformando em infraestrutura de valor. À medida que o recommerce amadurece globalmente, fica evidente que seu avanço não depende apenas de mudança cultural ou apelo sustentável, mas da construção de uma infraestrutura capaz de sustentar confiança, recorrência e valor ao longo do tempo. Nesse novo cenário, rastreabilidade, autenticação e dados do produto deixam de ser diferenciais e passam a ser pré-requisitos.

Um estudo conduzido pela BCG em parceria com a Vestiaire Collective, publicado em maio de 2025, revela como o comportamento do consumidor está diretamente ligado à presença de informações estruturadas no second hand. Segundo a pesquisa, 70% dos consumidores afirmam que autenticação e verificação são o atributo mais valioso de um Digital Product Passport (DPP) no momento da compra, enquanto 67% consideram esse mesmo fator decisivo no momento da revenda. O dado evidencia que a confiança continua sendo o principal motor do mercado secundário e que ela é construída a partir de informação verificável.
Logo na sequência aparecem as especificações do produto, valorizadas por 68% dos compradores e 64% dos vendedores. Detalhes como composição, modelo, origem e características técnicas reduzem assimetrias de informação e tornam a revenda mais eficiente. Quanto mais claro é o produto, maior é sua capacidade de circular e manter valor ao longo do tempo. Outros atributos, como instruções de cuidado, origem de fabricação e histórico do item, reforçam esse mesmo movimento ao oferecer previsibilidade e segurança às transações.
Curiosamente, dados de sustentabilidade aparecem com menor peso relativo quando comparados à autenticação e às informações técnicas. Isso não indica desinteresse ambiental, mas revela uma priorização prática por parte do consumidor: antes de considerar impacto, ele busca segurança, clareza e legitimidade. A sustentabilidade, nesse contexto, passa a ser consequência de um sistema bem estruturado e não apenas um argumento isolado.
Quando analisadas as categorias mais desejadas para a adoção de passaportes digitais, a moda se destaca de forma consistente. Bolsas lideram com 79% de preferência, seguidas por roupas, com 63%, e calçados, com 53%. O dado confirma que a moda reúne as condições ideais para escalar o recommerce: alto valor simbólico, rotatividade, desejo contínuo e agora uma camada crescente de infraestrutura digital que sustenta o mercado secundário.
Além da transparência, o estudo aponta benefícios operacionais claros associados ao Digital Product Passport. A autenticação instantânea reduz riscos de falsificação, o preenchimento automático de dados simplifica processos de listagem e relistagem, e as informações verificadas sobre condição, procedência e histórico permitem decisões de compra e venda mais inteligentes. Ao mesmo tempo, orientações sobre uso, cuidado e fim de vida contribuem para ampliar o ciclo de vida dos produtos.
O ponto mais estratégico, no entanto, está no impacto desse modelo para as marcas. A BCG destaca que os passaportes digitais permitem que empresas permaneçam conectadas aos produtos e aos consumidores muito além da primeira venda. Isso abre espaço para um CRM mais rico, gera inteligência contínua sobre o comportamento do item ao longo do tempo e oferece maior controle sobre o mercado secundário. O second hand deixa de ser um território externo e passa a integrar a estratégia de negócio de forma estruturada.
Nesse contexto, o recommerce deixa de ser apenas um canal alternativo e se consolida como um sistema de gestão de ciclo de vida. A circularidade, para ser eficiente, exige dados, autenticação e rastreabilidade. O futuro do second hand não é improvisado, ele é construído sobre infraestrutura, confiança e continuidade.
Fonte
BCG x Vestiaire Collective Resale Survey, maio de 2025.
BCG Analysis.