A GEN Z ACELERA O SECOND HAND E O BRASIL ENTRA NA CURVA GLOBAL

hi@blog.cercle.id

Tempo de Leitura

Postado em

21 de janeiro de 2026

ID

381

A revenda deixou de ser um comportamento periférico dentro da moda. Ela está se consolidando como uma estrutura de mercado com lógica própria, escala crescente e influência direta no jeito como o consumidor descobre marcas, acessa produtos e define desejo. Em outras palavras, o second hand deixou de ser “alternativa” e passou a operar como canal, com impacto real sobre percepção de valor, aquisição e recorrência.

Os números ajudam a dimensionar esse deslocamento com objetividade.

Hoje, a revenda já representa cerca de 8% das vendas globais de moda e luxo e pode chegar a 10% até o fim da década.
Projeções também apontam um mercado com potencial de movimentar US$ 360 bilhões até 2030.

Isso torna difícil tratar a revenda como tendência passageira ou movimento restrito a nichos. A escala já existe, e ela vem acompanhada de maturidade: comportamento, tecnologia e modelos de negócio avançam em conjunto.

Esse avanço acontece porque a narrativa do second hand mudou. Durante anos, a revenda foi reduzida a uma lógica de preço. Só que “economia” não explica a adesão crescente dentro do universo premium, nem a aceleração entre públicos mais jovens. O que move o second hand hoje é uma combinação mais sofisticada de fatores: autenticidade, raridade, curadoria, construção de identidade e acesso. A revenda vira um lugar onde o consumidor encontra peças que já não estão disponíveis no first hand, descobre produtos de culto, acessa marcas premium e participa de uma estética que valoriza história e seleção.

A Gen Z ocupa o centro desse movimento, não apenas pelo volume, mas pelo padrão cultural de consumo que impõe.

Cerca de um terço do guarda-roupa da geração Z já é composto por peças de second hand.

Isso sinaliza uma normalização definitiva. Não se trata mais de adesão pontual, mas de repertório: o consumidor jovem não vê a revenda como “segunda opção”, e sim como uma camada natural do consumo. O prazer do garimpo, a busca por exclusividade e a valorização de itens com narrativa própria reorganizam o papel da revenda no imaginário de moda. O que antes era “produto usado” passa a ser “produto desejável”.

Existe ainda um efeito estratégico pouco debatido: revenda se tornou um motor de descoberta. Em vez de encontrar marcas apenas através do varejo tradicional, parte relevante dos consumidores passa a navegar o mercado secundário como fonte de repertório, estilo e entrada no premium. Essa inversão muda o funil de forma profunda: o second hand deixa de ser apenas destino de descarte e passa a funcionar como vitrine. É aí que o jogo para as marcas fica mais complexo, porque o consumidor não depende mais exclusivamente da coleção atual para se relacionar com o desejo, e o valor simbólico de um produto passa a sobreviver para além do calendário de lançamentos.

Do ponto de vista de categoria, o crescimento não é homogêneo e isso importa. Vestuário e calçados seguem dominando o mercado de revenda e refletem escala e recorrência natural do consumo.

Vestuário e calçados representam aproximadamente 80% das transações no mercado de revenda.

Ainda assim, as categorias que mais crescem sinalizam um passo seguinte de maturidade do setor: relógios e joias ganham destaque e passam a puxar valor.

A projeção é que a revenda de relógios, sozinha, represente 35% a 40% do mercado até 2030.

Essa expansão do hard luxury não é um detalhe. Ela marca uma mudança de status do próprio second hand. Quando o consumidor aprende que revenda pode significar segurança, lastro e legitimidade, a barreira cultural deixa de existir. A revenda se aproxima do comportamento de colecionismo e de patrimônio, com decisões de compra menos orientadas a “substituição” e mais orientadas a escolha estratégica.

Para que esse mercado escale, confiança precisa deixar de ser promessa e virar infraestrutura. E é exatamente isso que começa a acontecer com o avanço de tecnologia aplicada ao setor. Recursos como autenticação, rastreabilidade e os Digital Product Passports (DPPs) passam a funcionar como camada de credibilidade. Não apenas reduzindo fricção e risco, mas reposicionando o second hand como canal premium em padrão de experiência. É a tecnologia que permite transformar o mercado secundário em um sistema confiável, com histórico, validação e controle, aproximando a revenda do nível de exigência do first hand.

No Brasil, o movimento não se estabelece como fenômeno isolado, mas como parte de uma consolidação nacional do hábito. O crescimento do e-commerce, a digitalização acelerada do consumo e a expansão do interesse por luxo consolidam o país dentro do mapa global de revenda.

As vendas online de artigos de luxo pessoal no Brasil cresceram 261% entre 2019 e 2024.
O país se destaca como o 9º mercado entre os que mais crescem em revenda.

Essa combinação entre expansão digital e amadurecimento do comportamento aponta para um cenário claro: o second hand não apenas cresce, como se institucionaliza.

Para marcas, esse contexto exige uma leitura pragmática. A revenda existe com ou sem elas. Quando acontece fora do ecossistema oficial, ela vira um vazamento de valor. Preço e curadoria deixam de ser controlados. A narrativa circula sem padrão. A experiência de compra não segue o nível da marca. E principalmente: a marca perde visibilidade sobre o próprio ciclo de vida do produto, sobre seus consumidores e sobre sua capacidade de gerar recorrência.

Quando a revenda é operada de forma oficial, ela muda de função. Ela passa a proteger valor percebido, reforçar desejo, sustentar relevância cultural e criar um modelo de fidelidade onde o produto não termina na compra, mas continua gerando relação e retorno. O second hand deixa de ser apenas circularidade e passa a ser estratégia de negócio.