O mercado de segunda mão entrou em sua fase estratégica.
Durante anos, o mercado de segunda mão em moda e luxo foi tratado como um fenômeno periférico, associado principalmente à sustentabilidade ou à busca por preço. O estudo How Fashion and Luxury Brands Can Win the Secondhand Market, publicado pela BCG em 2025, mostra que essa leitura ficou para trás. A revenda entrou em uma nova fase, estrutural, estratégica e diretamente conectada ao crescimento das marcas .
Segundo a BCG, o mercado global de segunda mão cresce aproximadamente 3 vezes mais rápido do que o mercado de moda tradicional, com um CAGR estimado entre 9% e 12% ao ano, e deve alcançar algo entre US$ 320 e US$ 360 bilhões até 2030. Hoje, ele já representa cerca de 8% do mercado global de moda, com projeção de ultrapassar 10% até o final da década .
Esse crescimento não está restrito a categorias de entrada. No segmento de luxo, especialmente bolsas, calçados e ready-to-wear premium, a penetração da segunda mão é ainda mais relevante. A pesquisa indica que, em mercados maduros como Estados Unidos e Europa, até 40% das bolsas adquiridas por consumidores ativos já são pre-owned, refletindo uma mudança profunda na percepção de valor .
A BCG destaca que o comportamento do consumidor evoluiu de forma clara. A segunda mão deixou de ser apenas uma alternativa econômica e passou a ser uma escolha intencional. Cerca de 80% dos consumidores ainda citam o preço como principal motivador, mas fatores como acesso a peças raras, itens fora de linha e maior variedade de estilos aparecem logo em seguida. A experiência de descoberta tornou-se parte central da proposta de valor da revenda .
A tabela abaixo, adaptada do relatório, ajuda a visualizar essa mudança de motivação:

O ponto central do relatório é que a segunda mão deixou de ser um tema reputacional e passou a ser um canal de crescimento, aquisição e retenção. Marcas que operam ou integram estratégias de recommerce passam a acompanhar o ciclo completo de vida do produto e permanecem relevantes mesmo após a primeira venda. Ignorar esse movimento significa abrir mão de dados, relacionamento e receita recorrente.
O que o avanço do recommerce revela sobre o futuro da moda no Brasil
Quando observamos os dados globais da BCG à luz do mercado brasileiro, o cenário é menos distante do que parece. O Brasil já apresenta sinais claros de maturidade cultural em relação à segunda mão, especialmente entre Millennials e Geração Z, impulsionados por comportamento digital, sensibilidade a preço e valorização de identidade.
O relatório aponta que mercados com alta digitalização, forte presença social e desigualdade de renda tendem a acelerar a adoção da revenda. Essas três características estão fortemente presentes no Brasil. Globalmente, mais de 70% das transações de segunda mão já acontecem online, e esse percentual é ainda maior em países onde o Ecommerce é dominante, como o Brasil .
Outro dado relevante é o impacto do recommerce no relacionamento com o cliente. A BCG demonstra que consumidores que participam de programas de revenda oficial apresentam maior frequência de compra, maior tempo de relacionamento com a marca e menor custo de aquisição ao longo do tempo. A lógica é simples: ao permitir que o cliente revenda, a marca cria um incentivo concreto para a recompra.
Para o mercado brasileiro, esse ponto é especialmente relevante. A revenda não apenas destrava acesso a marcas aspiracionais, como também cria um novo tipo de fidelidade, menos baseada em posse e mais baseada em circulação. O produto deixa de ser o fim da relação e passa a ser um meio para manter o cliente dentro do ecossistema da marca.
Para o Brasil, o recado é direto: o recommerce não é uma tendência importada. Ele é uma oportunidade concreta de crescimento sustentável, culturalmente alinhada e economicamente inteligente. E quanto antes as marcas se posicionarem, maior será a vantagem competitiva construída.